Voltando no tempo e espaço, para que sejam registrados fatos e vivências que me encaminharam para a trajetória profissional como artista plástico e educador, relatarei fatos que ainda se encontram arquivados na memória, memória esta que não guardou somente fatos, mas também cheiros, formas, gostos, cores e sonhos... Lindos sonhos coloridos. Como artista plástico e educador ou como educador e artista plástico, não enfatizo uma ou outra profissão.
Com relação às lembranças, logo vem à minha mente o grande diretor do cinema italiano Federico Fellini (1920-1923), sobre o qual certa vez Alberto Moravia escreveu “que ele filmava o passado como se fosse o presente e o presente como se fosse o passado”. Penso que também venho entrelaçando o passado e o presente transfundindo um no outro. Nesse fluxo em que se mistura a memória e a fantasia, identificarei alguns fatos reais, alguns sonhos e pouca fantasia para não cair no descrédito.
Lembranças como as festas populares, os brinquedos de rua, a paisagem, o céu abundantemente colorido e estrelado, as forças da natureza como o vento e a chuva. O cheiro de terra no ar após a chuvarada. O cheiro da flor da jabuticabeira entrando pela janela do quarto ao amanhecer. O cheiro da flor de manacá sempre presente no ar... As noites silenciosas no seu silêncio.
O meu mundo era um mundo pequeno e protegido. Era o meu jardim. Era o meu quintal, enfim, a pequena São Joaquim da Barra/SP. A infância até a passagem para a adolescência foi aquela infância feliz como era a infância da maioria das criança do interior, com os brinquedos e jogos de bolinhas de gude, bafo, bete, bola, pega-pega. As matinês dominicais e os seriados nos cinemas locais. A praça com o coreto, a banda e a fonte luminosa. As quermesses, as festas juninas, as pescarias e os pássaros nas gaiolas.
Missas aos domingos na igreja matriz e as novenas para ajudar a passar de ano escolar.
Começando na pré-escola e continuando no curso primário, foi criado o hábito de coletar sobras de giz e levá-las para poder desenhar no vermelhão do tanque de lavar roupas como também no piso. Quando não havia giz, usava pedaços de tijolos mal queimados. Passava horas e horas desenhando.
Desenhava paisagens, animais, flores, frutos, figuras humanas e criava outras formas. Esquecia da vida...
Fazia também “panelinhas de barro” na alta poeira da rua sem calçamento. Para fazê-las, com uma latinha qualquer, pegava água e ia jogando-a com toda a paciência possível no local escolhido, criando panelinhas com diferentes formatos.
Sonhava sonhos coloridos, como o sonho “intergaláxico”.
Ainda hoje me lembro de uma cena lindíssima, uma fantasia, que eu não sei se foi um sonho ou se eu a criei ou se ouvi alguém contá-la: “- Em uma cheia na Amazônia, em algum de seus pequenos rios, achava-me em uma canoa remando quando certa hora começaram a sair bolhas de água de dentro do rio, aos poucos as bolhas foram aumentando... aumentando.. em uma quantidade infinita. As bolhas começaram a estourar e delas surgiam borboletas coloridas voando! Eram amarelas, azuis, brancas, vermelhas, laranjas, todas as cores que se movimentavam para todos os lados! Um ritmo de cores! Uma maravilha todas aquelas cores em movimento!”
Durante o curso ginasial descobri a pintura a óleo. Comprei tintas, pincéis e telas e sem o mínimo conteúdo técnico comecei a pintar. Para continuar as minhas seções de pintura, às vezes eu pegava pratos de refeições e os pintava com tinta a óleo.
Com o tempo, comecei a recortar reproduções de obras de artistas famosos publicadas nas revistas da época e colá-las em cadernos de desenho. Esses cadernos se transformaram em arquivos que eu sempre pegava para rever as reproduções. Eram artistas famosos, mas não sabia muito bem o porquê das suas importâncias. Lembro-me de: Van Gogh, El Greco, Picasso, Djanira, Gauguim, Michel Angelo, Leonardo da Vince, Toulouse Lautrec, Portinari, Di Cavalcanti, Aldemir Martins, Manabu Mabe.
Quando estava no primeiro ano colegial, houve um concurso de cartazes para o Dia das Mães. Fiz o trabalho a lápis preto sobre cartolina, era uma mulher amamentando uma criança. Após a votação efetuada pelas mães, o meu trabalho foi premiado.
Terminando o curso colegial em 1967, comecei um tanto inseguro a preparar a minha vinda para São Paulo para estudar e trabalhar. Era só em São Paulo, na Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP e na Faculdade de Belas Artes, que havia cursos de Bacharelado e Licenciatura em Artes Plásticas. Optei pela FAAP. Fui me adaptando às novas realidades da cidade de São Paulo e superando as dificuldades.